Complexo de estrangeira

Acho o maior barato ser estrangeira no Japão. Me sinto especial e vejo que desperto a curiosidade dos nativos. Afinal, está literalmente na cara que não sou japonesa.

Criancinhas e velhinhos, que não sabem disfarçar tão bem quanto os outros, chegam a me deixar constrangida de tanto olhar! E sei que o mesmo acontece com meus colegas de olhos e narizes tão grandes (para o padrão japonês!).

Claro que, em Tóquio, estrangeiro não é novidade. Mas em muitos outros cantos do Japão é novidade sim. E até mesmo onde não somos uma super novidade, dificilmente, passamos despercebidos.

Mas o problema de me sentir observada é saber que não posso errar! Se no Brasil, eu já gostava de respeitar faixas de pedrestres e coisas do tipo, agora, respeito mais ainda. Faço questão de mostrar para os japoneses que somos bem educados sim.

Rodeios à parte, dia desses entrei num trem e dei de cara com uma carteira em cima do banco. Vi três moças saindo e sabia que era de uma delas.

medoMas o trem não espera e não tive tempo de sair correndo atrás delas, nem coragem de gritar: ei, a carteira! Afinal, grito aqui no Japão é muito mais feio do que no Brasil.

Estava numa cidadezinha do interior e o trem praticamente vazio. Naquela metade do vagão, só estávamos eu e uma senhora. Ela ignorou a carteira e eu não conseguia parar de pensar numa maneira de fazer o meu papel de cidadã do bem, sem correr o risco de ser mal interpretada.

Com essa cara de estrangeira e numa cidade onde muitos conterrâneos já foram parar nas páginas policiais, deu medo de pegar a carteira e levar até o maquinista. A doninha vai achar que eu roubei!, pensei.

Por outro lado, não podia ser tão fria como ela e simplesmente deixar lá! E se entra alguém mal intencionado e leva a carteira da moça? Que, aliás, estava tão gordinha (a carteira, não a moça) que parecia cheia de dinheiro.

Fiquei naquela angústia até chegar a minha estação que, por sorte, era ponto final. Já que havia tempo, fui até o maquinista e avisei: tem uma carteira marrom esquecida no banco lá do outro vagão.

Ele agradeceu, foi lá, pegou a carteira e voltou até mim:

_ Por favor, aguarde aqui.

_ Ok (disse, já com um frio na barriga! Não acredito que ele vai chamar a polícia!, pensei.)

Ele voltou com outro senhor e os dois começaram a me falar um monte de coisas num vocabulário sofisticado demais para os meus conhecimentos.

Sem entender nada, eu explicava (já arrependida de ter tentado ajudar):

_ Nem toquei na carteira, só vi!

Os dois não paravam de falar e eu arranjei outra desculpa:

_  Preciso ir. Estou atrasada, tenho que trabalhar.

Nem assim, os moços me deixavam em paz. Até que, finalmente, eu entendi que eles queriam apenas me avisar que eu tinha direito a uma recompensa por ter encontrado a carteira.

Era para eu deixar o meu endereço para que a dona entrasse em contato e mandasse o agradecimento, geralmente, em forma de presentinho ou dinheirinho.

Eu disse que não precisava, eles ficaram surpresos e com uma série de “abaixadas de cabeça”, me agradeceram aos montes.

Fui embora feliz da vida e aliviada por não ter ido parar na delegacia de polícia :p

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11 Respostas para “Complexo de estrangeira

  1. Outro dia ví uma moeda de 100 ienes (aprox. 1 dólar) em cima de um dos assentos do trem. Viajou por cerca de 8 estações, e o trem estava cheio. O detalhe é que todos os assentos estavam ocupados, menos aquele. Talvez por vergonha, ninguém teve coragem de pegá-la (mas ví muita gente de olho…) – e nem de sentar em cima, rs. Quando desci do trem, ainda estava lá.

    Meu queixo quase caiu tamanha honestidade, ou sei lá como podemos chamar isso. Essas coisas, só aqui no Japão mesmo. É preciso ver para crer! 😛

  2. Imaginei-me desde o primeiro momento no seu lugar, quase senti aquele “friosinho” também. Adoro ler as suas experiências no país do sol nascente, mas isso já não é novidade para você.

  3. Uma vez também achei uma carteira no supermercado perto de onde eu morava e entreguei para a mocinha do caixa. Se ela falou que eu tinha direito a recompensa, eu não entendi. Que droga ! 🙂

  4. eh… aqui no japao eh lei o dono da carteira perdida tem q dar nao sei qtos por cento do valor q tinha dentro da carteira… uma vez meu amigo encontrou uma carteira na rua e entregou no koban perto da casa dele… dias depois ligaram falando q era pra ele passar la e pegar a recompensa… mas o valor era bem baixo e ele nem foi…

  5. Desculpe o sumiço. Achei que tinha cadastrado seu novo endereço no meu Reader, mas não tinha.
    Finalmente, de volta a Karina que eu conheci e sempre adorei. Mas comento sobre isso pessoalmente ou pelo msn. 😉

    Comentando o post, eu me identifiquei muito. Realmente a sensação de não poder errar é grande. De uma certa forma, a cobrança a maior.
    Parabéns pela atitude! Parece pequeno, mas é de atitude em atitude que a gente vai reverter a imagem que foi criada sobre os estrangeiros.

    PS.: Acho que eu conheço essa estação ponto-final aí, hein!? 😛

    Saudades docê!!!

  6. Cada coisa que acontece né menina…
    bjooo
    saudades

  7. Eu sempre quis saber como era ser diferente no Japão, acho que você matou minha curiosidade.
    Parabéns pela sua atitude!

    Abraço

  8. É por isso que eu sou seu fã. Beijos.

  9. Pois é, como sansei nascido e crescido na zona leste de Sampa, sei bem o que é esse complexo de estranheza, mas pelo lado oposto…rs
    Até hoje ainda me assusto como algumas pessoas, dependendo do lugar, me olham com certa estranheza, principalmente as crianças.
    E, realmente, a gente se cobra muito mais por isso, pois já colocamos na mente que, caso cometamos algum erro, as pessoas vão sempre dizer… “Foi o japonês lá” ou “Konno gaijin desu ne”, criando generalizações e prejudicando todo um conjunto de pessoas e não somente a pessoa q causou determinado delito.
    Tanto q uma das coisas q minha mãe mais dizia na minha infância era p/ não fazer nada errado, não passar nenhuma vergonha da frente de brasileiros (ou “gaijins”) pois com isso eu sujaria toda a “raça”. A cobrança era grande, mas talvez por isso hoje consegui o sucesso q consegui.
    Parabéns pela atitude e continue sempre assim.
    Bjs!

  10. olá sempre leio suas matérias na Alternativa e adoro, tbm estou no jp e por não ser descendente me sinto como vc sendo olhada por todos, então procuro sempre andar na linha pq senão fica a sensação que vão dizer só poderia se gaijin…

  11. ola, gostaria que todos os brasileiros tivessem atitudes tão dignas quanto as suas, acho que como disse um dos comentaristas acima, isso reverte a imagem dos brasileiros ai…bjokas!

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